Pensamento do Dia

Uma das coisas que a gente vai aprendendo na estrada é cada vez mais ser mais transparente.

Não tem nexo se martirizar por coisas que vão além do seu controle, ou deixar de expressar seus sentimentos por causa de conceitos que não foram criados por você.

E digo sentimentos na mais pura forma, o da amizade e da afinidade pelas pessoas que vão cruzando seu caminho :)

A Raiz Cabocla do iPhone

É bacana contar histórias lindas e melosas, mas o que fazer quando o infortúnio bate a sua porta? hah

O romance de suspense, comédia e drama se desenrolou da seguinte maneira.

Havia acabado de entardecer na praça em frente ao teatro Amazonas. Todas as luzes estavam acesas e o céu tinha o lindo azul escuro pós-chuva amazonense. Crianças pulavam em torno da mulher que vendia bexigas. Um casal aproveitava o escurinho para brincar de pega-pega no banco da praça.

Foi então que o infortúnio aconteceu.

Esta pessoa que vos fala segurava nas mãos uma cumbuca de tacacá fervendo, um livro, a chave do hotel, o celular e para “enlaçar” a história, também tinha o fio do fone de ouvido sambando no peito. Era hora de procurar um lugar para sentar.

Pensem comigo, só podia dar merda né?

Foi nessa hora que o celular se sentiu oprimido e resolveu cometer suicídio. Ele já havia feito isso algumas vezes (esses eletrônicos são temperamentais), mas ele sempre sobreviveu. Só que desta vez ele não contou que estava fora de casa e muito menos que o chão da praça fosse feito de pedras irregulares. Ao pegá-lo na mão vi que o estrago tinha sido feio.

Aí eu fiz o que precisava ser feito. Comi meu tacacá.

Passado o susto eu percebi que o iPhone já era, o lance era usar meu celular reserva e continuar a viagem. Consertá-lo em 2 dias seria impossível (Em SP só um orçamento demora mais de 10 dias) e sairia caro demais comprar outro nesta altura do campeonato. Eu não teria mais a câmera do celular, mas paciência.

No dia seguinte fui fotografar o porto e passei pelas mesmas barracas de camelô de todo dia, lá estavam as camisetas, cuecas e milhares de celulares made in China. Vi o preço de uns dois aparelhos bizarros e resolvi arriscar perguntando se o cara não conhecia alguém que consertasse iPhone. – Claro, fala alí com o Chico… Ôooh Chico, cliente pra você.

Acho que se eu fizesse uma cirurgia de apêndice ao ar livre eu não sentiria tanta aflição como ver o Chico mexer na placa mãe do celular com uma mão e com a outra comer melância. Por incrível que possa parecer, o celular está vivo e a cirurgia demorou só uma hora e meia.

Ah se o titio Jobs visse isso ;)






Ps. A partir de amanhã ficarei isolado do mundo por mais ou menos 12 dias, fiquem com Deus.

O Fantástico Mundo de Lethem

O Alta havia comentado comigo que quase ninguém gosta de ir a Lethem, cidade da Guiana (inglesa) que faz divisa com o Brasil, mas que eu iria adorar.

Nos papos que tive com o pessoal de Boa Vista isso realmente se comprovou, todos dizem que não existe nada para se fazer em Lethem, que preferem mil vezes Santa Elena (de Uairén), cidade divisa com o Brasil pertencente a Venezuela.

Ambas as cidades possuem suas peculiaridades, porém Lethem é fantástica :D rs

A Guiana é o único país da America do Sul onde se fala inglês, aliás, um inglês bem complicado de se entender, uma coisa cantada com um quê caribenho. Só isso já valeria a visita.

Speak English?

Mercado Público de Lethem.

Nunca na minha vida pensei que conheceria esse país, e por mais que eu só tenha ido até a cidade fronteira, já foi possível sentir como tudo é muito diferente.

Diferente?

Bem, logo que se cruza a fronteira você pega um viaduto, e assim que ele termina * PLIN * você está dirigindo na tal “mão inglesa”. Isso significa que a partir deste momento sempre andará na pista da esquerda e quem vier no sentido oposto passará a direita do seu carro, vide a foto abaixo rs É surreal ver isso na América do Sul :)

Barbeiro é a mãe!

Lethem é pequena e parece sobreviver do mercado pirata. Todos os dias brotam novas lojas ricas em produtos da Adidas, camisas Lacoste e de times internacionais, tênis Nike e Puma, além de bolsas, perfumes e brinquedos. O engraçado é que os produtos possuem uma qualidade superior daquela encontrada em SP, com um preço bem menor. Esse é o motivo que tantos brasileiros visitam a cidade.






Eu adorei conhecer Lethem, principalmente por causa da sua ”estranheza” heh Um dos tours que recomendo é a ida a qualquer mercadinho, ali é possível encontrar produtos que você nunca viu na vida, inclusive gôndolas lotadas de Curry, uma das especiaria mais usadas na Guiana.




Um caso a parte são os refrigerantes locais, a variedade de sabores diferentes é fantástica, dentre eles: Gengibre, Abacaxi, Tangerina, Banana, Chiclete, Big Red (oi?), Cream Soda (que comprovadamente tem gosto de desodorante de quinta rs). Muitos sabem que não bebo refrigerante, mas experimentei todos, e o Top Of Mind foi o de banana, como pode o Brasil inventar tantas comidas e sobremesas com banana e nunca terem feito um refrigerante?!

Refrigerante ou Cerveja de Gengibre?

Hã, hã, pegou o trocadilho? ;)

Cores e sabores que só a Guiana tem pra você.

Passando pela fronteira na volta, um policial federal brasileiro perguntou depois de ver o porta-malas praticamente vazio: – Não compraram quase nada né?

Welcome to the fantastic World of Lethem ;)

Tchau Roraima!

Existem pessoas que surgem em nossas vidas e te deixam de boca aberta tamanho é o impacto que conseguem exercer sobre nós.

Sou apaixonado por pessoas de bem. Por conta disso me sinto na obrigação de agradecer a Deus pelas pessoas que ele tem me apresentado este ano.

Começo por janeiro, que surgiu trazendo uma nova e fantástica amiga, que fisicamente não está aqui, mas consegue estar presente no projeto de outras formas ;)

Agora em fevereiro isso triplica, fui apresentado a uma família de outro mundo que me acolheu aqui em Boa Vista, Altamiro (que citei no primero post aqui no blog), sua esposa Lídia e o filho Marcos. Eu não tenho palavras para agradecer tudo que eles fizeram por mim aqui. Eu nunca os tinha visto na vida, muito menos conversado pelo telefone. Eles abriram a casa como se me conhecessem há séculos, fiquei aqui quase um mês, conversamos muito e tenho certeza que saio daqui com três grandes amigos :)

Aprendi também com uma lição bonita na teoria, mas que agora vi na prática. O mundo ao nosso redor somos nós mesmos que fazemos, e daqui não levamos nada de material, o contato entre pessoas da mesma vibração supera qualquer tipo de riqueza. Eu não passei por Boa Vista, eu morei em Boa Vista. Aqui tive um lar pelo tempo que fiquei. Esse é o tipo de coisa que se aprende, dá gosto de compartilhar e principalmente tentar aplicar em nossa vida.

Agradeço ao Alta e a Lídia pela empolgação, por todos os papos, contatos, dicas e lições.
Agradeço ao Marcos por ter me emprestado mais gibis da turma da mônica que eu pudesse ler. Proteja sempre a casa dos zumbis! ;)

Nós no Tepequém

3 coisas que você precisa saber sobre Boa Vista:

Nunca vi a roupa secar no varal tão rápido como aqui.
Em Boa Vista você adquiri o estranho hábito de andar no meio da rua; as calçadas, quando existem, estão lotadas de carros atravessados.
As pessoas dirigem muito mal por aqui, na verdade acham que dirigem bem, este talvez seja o problema. Em contra partida, como pedestre é só você levantar a mão na faixa de pedestre que os carros param, nem na Europa eu vi tanta eficiência.

Curiosidade: Damurida

A bala passou de raspão, mas poderia ter sido fatal rs

Damurida é um prato indígena similar a dinamite, um composto onde a pimenta é quem manda e pode te fazer chorar como um bebê.

Cocktail de Pimentas.

Durante minha estada em Boa Vista escutei essa palavra em diversos lugares, quase todos falavam da Damurida como se ela fosse uma pessoa que merecesse ser temida. Ontem (13/02) nós fomos apresentados cara a cara.

De forma simplista, este prato indígena é um sopão de pimentas.

A Damurida não é vendida em restaurantes, é algo realmente característico da maloca de algumas etnias indígenas. Como então eu iria experimentá-la?

Foi aí que a sorte soprou em meu favor :) O personagem que escolhi para o projeto aqui em Boa Vista não só sabe, como adora fazer este prato (yeah! rs). Ele como defensor da cultura e culinária local disse que me prepararia com prazer.

Foi a necessidade quem criou a Damurida

Muito tempo atrás, em períodos de longas caminhadas, os índios tiveram que inventar um jeito de conservar a caça e a pesca. Foi aí que nasceu o moquém, uma técnica de assar a carne e o peixe de forma lenta na brasa/fumaça. Só depois de tudo “moqueado” que era feito o transporte.

Como o alimento ficava bastante desidratado, nasceu a Damurida, um caldo com diversos tipos de pimentas, onde então era acrescentado o ítem moqueado. O prato é sempre acompanhado da farinha e do beiju de tapioca.

Beiju de tapioca; depois de pronto ele é colocado no telhado das malocas indígenas para secar.

Ele caiu no gosto de diversas etnias indígenas na região de Roraima. Hoje existe até uma competição de quem come mais Damurida.

A que experimentei ontem estava fabulosa, ela foi adaptada para não ficar TÃO forte e contava com a participação de outros dois ingredientes da culinária local, o tucupi (caldo extraído da raiz da mandioca brava) e o jambu (espere que escreverei depois sobre ele).

Isso sim é uma comida regional ;)

Damurida pronta para explodir na boca.

A música nos conecta…

…aos amigos, a família, ao cara lá de cima e a nós mesmos.

Uma pequena set list do que rolou em cima do Monte e tem rolado nas andanças por aqui:

– Carlos Farias
– David Gray
– Eliakin Rufino
– Hanggai
– Jarabe de Palo
– Keane
– Khalèd
– The Kooks
– Koop
– Loreena Mackennitt
– Lothlórien
– Nature’s Tranquility (Coletânea)
– Radical Face
– Rorameira (Eliakin Rufino, Neuber Uchôa e Zeca Preto)
– Sedaa
– Tarañu
– Telepopmusik
– Turkish Groove (Coletânea)
– Two Door Cinema Club


Teia de aranha em cima do Monte Roraima.

Série Monte Roraima – A Trilha 2

No texto anterior eu faço um comentário sobre como fiquei encantado com a cachoeira do Passo das Lágrimas, quase chegando ao topo do Monte Roraima.

Apesar da dificuldade por conta dos grandes desníveis e das pedras escorregadias, fiz questão de filmar um trecho da travessia.

A cachoeira é extensa e somente em alguns momentos sentimos realmente a água cair na cabeça, no geral só sentimos uma forte garôa. Toda a travessia é uma coisa de cinema ;)

Foi complicado publicar esse vídeo aqui de Boa Vista, a internet não é boa :/ Portanto baixei bem a qualidade para conseguir jogar na internet, não está 100%, mas pelo menos está no ar heh

Série Monte Roraima – A Trilha

Antes de iniciar o projeto, a única certeza que eu tinha era que subiria o Monte Roraima, um sonho que alimento há dez anos. Nesta pequena série de três artigos vou mostrar algumas dificuldades e prazeres desta fantástica expedição.

A maior parte do Monte Roraima fica na Venezuela, o Brasil possui um pedacinho e a Guiana outro teco. A subida é feita pela Venezuela, portanto visitei o Planeta de Hugo Chávez para chegar ao Monte. A loucura já começa com um fuso horário de +30m, isso mesmo, mais 30 minutos rs.

Entramos na cidade fronteira chamada Santa Elena de Uairen, lá trocamos a van por um 4×4 que nos levou até a aldeia de Paraitepuy. De lá andamos 15km de sobe e desce relativamente leve embaixo de muita chuva, mesmo assim a Savana se mostrou extremamente bela. Dormimos no acampamento Tek.


Chuva e o visual dos Montes Kukenan e Roraima encobertos pelas nuvens.


Parada para abastecer o cantil. Bota pendurada para secar no Acampamento Tek.

No dia seguinte andamos menos, 8km de boas subidas. Infelizmente também pegamos chuva. Ficamos no Acampamento Base que possui esse nome por estar ao lado do Monte. Impossível não arregalar os olhos com o tamanho do paredão que o Monte Roraima tem.


Uma subida bem leeeve nos espera no segundo dia de trilha ;) Carregador atravessa o Rio Kukenan.


Eu após cruzar o Rio Kukenan, a caminho do Acampamento Base.


Nevoeiro na Savana, um segundo dia com boas subidas. O Paredão do Monte Roraima visto do Acampamento Base.


A pequena subida de 4,5km ao topo do Monte Roraima. Oi?

No terceiro dia a brincadeira começou cedo, andamos só 4.5km. Só?! Logo de cara senti os músculos das pernas darem suspiros. Além da chuva atrapalhar, a subida é intensa e impossível de ser feita sem diversas paradas. O clima de selva é umido e um novoeiro se torna companheiro de viagem, ele impede que o Monte e a Savana sejam vistos, mas aos poucos você percebe que essa névoa é caracteristica, sem ela a surpresa não existiria, um clima místico nos cerca durante toda subida.

Uma das sensações mais fantásticas que já senti na vida foi caminhar por baixo do Passo das Lágrimas, uma cachoeira que fica um pouco antes do portal de entrada/saída do Monte. Acho que “sublime” é uma boa palavra para definir o lugar.


Subida leve… bem leve. Passo das Lágrimas. Pedra com o rosto de Makunaíma, Deus dos índios Pemons (na esq.) com o Passo das Lágrimas ao fundo.

Chegamos completamente exautos ao topo, mas apesar disso senti uma nova carga de energia, é tudo muito diferente, um floresta de pedras arredondadas e uma vegetação rasteira linda. O nevoeiro ainda está presente mas é possível perceber que entramos em outro mundo. A sensação de conquista e realização pessoal é animal :)


Nosso Hotel em cima do Monte, meu apartamente é o verde. Eu na cozinha do Chef Cecílio.

Apesar do Monte Roraima ser um platô, qualquer caminhada em cima dele significa que você irá subir e descer de muitas pedras, raros são os lugares de caminhada em terreno plano.


Nevoeiro em uma das caminhadas matinais em cima do Monte.

Como o assunto aqui é “trilha”, um caso interessante aconteceu na subida ao ponto mais alto do Monte, a Pedra Maverick.
De manhã choveu muito, mas a tarde abriu o tempo e resolvemos ir até a pedra. Tudo seguia tranquilamente até encontrarmos a lama engolidora de papetes hah. A trilha de subida era bem demarcada, mas como havia chovido muito, alguns pontos de apoio sumiram, nisso botas ficaram com lama até na alma, e eu por pouco não perco a papete, minha perna afundou quase até o joelho hah.


O ataque da lama engolidora de papetes. O Monte se despede. As Polares na volta ao Acampamento Tek.

Ficamos três noites no topo do Monte, e só depois da terceira que pensei… tudo que sobe, tem que descer. E a descida sim fez a perna justificar sua existência, o negócio não é para os fracos. A descida é mais rápida, mas se você não tomar cuidado a coisa pode ficar feia e te perseguir pelo resto da vida.

Logo após a descida almoçamos na Base e seguimos direto para o Acampamento Tek, totalizando 12,5km… estávamos cansados até que nos lembramos da cerveja venezuelana Polar que nos esperava lá… dormi como uma criança essa noite rs


Senhora que organizava a demanda pelas Polares.


Confraternização, alguns voltando pra casa e outros indo para o Monte.

Acordei com a claridade do sol e foi possível perceber a existência de músculos que nem a academia havia me mostrado. O trajeto final que seria relativamente tranquilo se transformou em algo um pouco mais complicado, mas nem liguei, o prazer de ter ido ao topo do Roraima e voltado é anestésico. A última lembrança que tenho do Monte é dele sumindo novamente nas nuvens como se fechasse as cortinas de um grande espetáculo ;)

Curiosidade: Pium

Pium é um pequenino inseto pode te causar muita coceira aqui em Roraima. Ele parece uma pulga voadora, e ao contrário do clássico pernilongo que suga o sangue, ele cavuca a pele e bebe o sangue do micro buraco que abriu. No lado venezuelano ele é conhecido como Puri Puri.
Esse bichinho do capeta adora ficar próximo aos rios ;)


Pessoas curtindo um final de tarde no Rio Cauamé em Boa Vista – RR.

Primeiras Impressões

Diretamente da bibliteca da Universidade Federal de Roraima começo a escrever o primeiro diário de borbo 15 dias após minha saída de São Paulo.

Boa Vista – RR, 25 de janeiro, aniversário de SP – 13:13 horário local (15:13 horário de Brasília).

Logo de cara é possível sentir a diferença de clima, aqui o calor é constante, só que não possui a umidade característica do Norte, transformando a cidade em um lugar bem suportável.

Fui recepcionado extremamente bem pelo Altamiro Vilhena, editor do fantástico blog Impressões Amazônicas, escoteiro e de quebra, médico pediátra que trabalha com saúde indígena ;) Vale dizer que quem me apresentou o Alta foi um grande amigo em comum chamado Mauro Lages.
Percebam aqui como a internet é louca e aproxima o mundo em um clique: O Mauro mora em Rio Grande (Extremo Sul), eu morava em São Paulo e o Alta em Boa Vista (Extremo Norte), depois de uma pequena troca de e-mails já deu para sentir a receptividade nortista made in Rio de Janeiro associada ao coração escoteiro do Alta, coisa de outro mundo para quem está acostumado com a desconfiança um tanto rude dos paulistas.

Logo que cheguei, jogamos minhas coisas no porta malas e já seguimos para uma comunidade indígena próxima de Boa Vista chamada Tabalascada, onde vivem duas etnias: Wapichana e Macuxi.

Sair de São Paulo diretamente para uma aldeia indígena, mesmo que “urbanizada” e próxima da cidade, é completamente o oposto do que estava sendo meu dia a dia. A terra batida, o calor, os índios, os médicos, enfermeiros e dentistas. Em duas horas fui praticamente apresentado ao mapa do Brasil, todos funcionários dos mais diversos lugares que chegam para trabalhar aqui.

Se eu queria fugir da rotina, foi esse o cartão de visitas que recebi ;)

Início da produção da farinha de mandioca.