A alma de Buenos Aires está nas ruas
Ensaio multimídia feito em Buenos Aires, capital da Argentina, com artistas de rua que mantém a tradição da cultura portenha. Diariamente esses artistas dominam as ruas da cidade. Eles são dançarinos de tango, artistas circenses, tocadores de violão, mas acima de tudo, são pessoas com muito talento que escolhem a rua como palco.
Fotos: Henrique Manreza / Texto: Karlo Gabriel
Normalmente um viajante procura descobrir a história e a cultura de um povo por meio de seus museus, livros, quadros, vai atrás de algo palpável, do registro. Em Buenos Aires, capital da nossa vizinha Argentina, é um pouco diferente, a melhor maneira de se conhecer sua história e seus costumes é nas ruas.
Em cada canto dessa cidade que louva seu passado é possível encontrar algum artista de rua expressando sua arte. Pode ser dançando tango, um dos expoentes máximos da cultura portenha, atuando em esquetes teatrais, pintando, cantando, enfim, a alma argentina está lá, dentro de cada um de seus milhares de artistas, prontos para compartilhar sua história e claro receber os aplausos do público hipnotizado.
Cada manifestação dos artistas portenhos é uma confirmação da memória desse povo; sua luta, seu patriotismo, seu ativismo político estão lá representados, porque quem não deixa morrer a arte e tradição também não deixa que outros aspectos da vida pública se percam. Um dançarino de tango não está apenas atrás de alguns trocados para poder garantir sua próxima refeição. Ele trás consigo toda a tradição desse gênero e demonstra seu amor à sua nação.
Diante dos apelos da pós-modernidade, era presumível que uma cidade que recebe tantos turistas importasse outras manifestações. Mas parece que para os portenhos o seu nacionalismo e amor pela Argentina são medidos pelo respeito a sua herança cultural. Quem que não seja argentino, não se surpreende ao ver Carlos Gardel em várias esquinas?
Esse espírito argentino, de seus artistas de rua, é um exemplo para países, como o Brasil, um resgate de culturas e tradições e um olhar mais crítico para aquilo que não é nosso, o intercâmbio cultural foi e sempre será importante para formar uma nação rica culturalmente mas não deveríamos tratar nossa arte como algo menor ou menos importante.
Com algumas poucas exceções, o Brasil a muito vem perdendo sua identidade folclórica. Os artistas de ruas brasileiros não são respeitados, são invisíveis para a restante da população, ou são considerados vagabundos. O que é valorizado para os brasileiros fora do Brasil, aqui é condenado.
A falta de cuidados com nossa cultura, história e tradição refletem diretamente na falta de cuidado com nosso país, nossa inapetência em brigar pela melhoria do país, realmente é preciso assumir que somos um povo sem memória.
Portanto, é admirável ver nossos hermanos atuando, cantando e dançando as tradições de seu país, levando sua cultura adiante, sua paixão pela arte, mostrando que um país não se faz apenas dentro do gabinete de seu governo, mas também com aqueles que diariamente contam a história do lugar onde vivem.
E que continuem a surgir artistas com esse espírito para continuar deslumbrando seu público, afinal, como diz o ditado sempre repetido por eles: um argentino não nasce, estréia.

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